Publicado originalmente na Revista Você S/A, edição 252, maio de 2019

Diversidade é o assunto do momento por aqui há pelo menos cinco anos, e o tema não dá sinais de desaquecimento. Pudera. Esta é uma pauta urgente para a sociedade e também para as organizações.

O Brasil ainda é um país profundamente desigual e preconceituoso. Há quem queira negar este fato, mas as estatísticas sobre violência contra mulheres, pessoas negras ou LGBTI+ são ruins o bastante para tirar o sono de qualquer um minimamente preocupado com o que acontece ao seu redor.

Nas empresas, o cenário é de ambiguidades. Se por um lado, é importante celebrar o avanço das discussões sobre diversidade, por outro ainda há muito o que fazer quando o assunto é inclusão. Essas duas palavras representam grandes desafios para as organizações contemporâneas.

Diversidade é o conjunto de características que nos torna únicos. Este conceito faz referência às questões de gênero, raça, orientação sexual, deficiência, idade, formação, nacionalidade, entre tantas outras. Falar de diversidade é falar de gente, de todas e todos nós, e da multidão de identidades que nos habitam.

Para quem lidera equipes, um bom exercício pode ser olhar ao redor, fazer o conhecido teste do pescoço, e se perguntar “este time é ou não é representativo da sociedade brasileira?”. Segundo o IBGE, o país é composto por 51% de mulheres, 54% de negros e 23,7% de pessoas com deficiência. Ou seja, as minorias somadas são a grande maioria da população – e dos consumidores.

Contar com esses e outros grupos representados no ambiente de trabalho é um compromisso ético e moral, mas também um fator necessário à própria sobrevivência dos negócios. Sem diversidade, nossa capacidade de leitura da sociedade é limitada. Um grupo homogêneo não consegue identificar demandas, se comunicar de forma efetiva e se antecipar às necessidades de todos os públicos de relacionamento da empresa.

Garantir a pluralidade de vozes na equipe é importante, mas elas precisam ter espaço para falar – e, mais ainda, ser ouvidas. Aí entra a inclusão, que é justamente o acolhimento da diversidade. Trazer perfis variados para a organização é um passo essencial, mas garantir que as pessoas sejam respeitadas em toda a sua singularidade é o que faz a diferença.

Neste ponto a conversa ganha complexidade, e a pergunta “este time é ou não é representativo da sociedade brasileira?” deve ser feita nos diversos graus hierárquicos da organização, da base ao board. E quanto mais a gente sobe, mais o calo aperta. No Brasil, mulheres são apenas 12% dos cargos de alta liderança e pessoas negras não chegam a 5%, segundo o Instituto Ethos.

Estes são números que teimam em não melhorar. As razões passam pelo preconceito (pode chamar de viés inconsciente se o termo lhe parecer muito forte) e pela falta de exemplos inspiradores, mas também pelas políticas e práticas da maior parte das empresas, que não consideram toda a pluralidade da nossa sociedade.

Para endereçar este assunto não tem outro caminho a não ser estratégia. É preciso olhar para as questões de diversidade e inclusão com a mesma seriedade e comprometimento com que tratamos qualquer outro tema na empresa. Mas este é assunto para um próximo artigo.

Ricardo Sales é sócio da consultoria Mais Diversidade, professor na Fundação Dom Cabral e pesquisador na Universidade de São Paulo. É palestrante e colunista da Revista Você S/A. Foi eleito pela Out&Equal um dos brasileiros mais influentes no tema diversidade nas organizações.

Publicado em 10 de junho de 2019 no LinkedIn por Ricardo Sales

Você provavelmente já sabe que junho é o Mês do Orgulho LGBTI+. Talvez saiba também que a escolha da data se deve a fatos que aconteceram há 50 anos, mais precisamente em 28 de junho de 1969, nos Estados Unidos. O que você talvez não conheça são os detalhes desta historia, por isso resolvi escrever este artigo em celebração à campanha #ProudAtWork, do LinkedIn.

O surgimento simbólico do movimento LGBTI+ se deu no bar Stonewall Inn, frequentado principalmente por homossexuais em Nova York. Ali, eram comuns as batidas policiais e cenas de preconceito, até que os frequentadores resolveram se insurgir. Os confrontos abertos chamaram a atenção para a situação a que aquele grupo era submetido e levaram à maior articulação das pessoas LGBTI+, que naquele momento reivindicavam, sobretudo, direito à visibilidade.

A respeito do surgimento do ativismo LGBT nos Estados Unidos – ainda que não fosse chamado desta maneira nos anos 1960 -, o pesquisador Alessandro Silva (2006) destaca algumas informações interessantes. Primeiramente, é preciso considerar que os fatos se dão de forma processual e muitas vezes refletem movimentos acontecidos no passado.

Assim, Stonewall é o ponto alto de uma narrativa que começou a se desenhar algumas décadas antes. Em 1924, surge nos Estados Unidos a primeira organização gay. Tratava-se de uma experiência bastante embrionária, inspirada pelo que já havia acontecido na Alemanha alguns anos antes.

Algum tempo depois, em 1933, com o fim da Lei Seca e a volta da liberação da comercialização de álcool, diversas cidades norte-americanas testemunharam a abertura de bares. Alguns destes estabelecimentos eram voltados à socialização de homossexuais, ainda que este fato fosse obrigatoriamente “maquiado”.

Silva (2006) aponta que uma das inúmeras restrições que regulavam o processo para se obter uma licença para a comercialização de bebidas alcoólicas era justamente não autorizar estabelecimentos voltados ao público homossexual. Assim, os poucos espaços existentes funcionavam de maneira bastante discreta e à base de pagamento de suborno a policiais, prática que culminaria nos acontecimentos de Stonewall, anos mais tarde.

Mais adiante, os anos 1940 foram marcados pela influência da Segunda Guerra Mundial, que teve impacto em diversos setores, é uma das responsáveis pelo aumento de mulheres no mercado de trabalho e influenciou também o ativismo homossexual.

Neste sentido, ainda de acordo com Silva (2006), o fato mais significativo foi a formação de redes de suporte e relacionamento entre homossexuais. Estas redes surgiram entre as mulheres que ficaram nos Estados Unidos e também entre os homens que estavam no front. A proximidade e o contexto teriam permitido um compartilhamento de experiências que facilitaria, finalizada a guerra, a articulação em torno de reivindicações comuns e também a maior visibilidade de identidades historicamente marginalizadas. Segundo Silva (2006), “em outras palavras, podemos dizer que a guerra trouxe consigo importantes transformações nas dinâmicas psicossociais e psicopolíticas da sociedade em geral, assim como nas relativas ao coletivo lesbigay” (SILVA, 2006, p. 158).

Quase no fim da década de 1940, as pesquisas de Kinsey, que você talvez conheça do filme Vamos Falar de Sexo, também colaboraram para dar visibilidade à questão homossexual, sobretudo pela afirmação de que pelo menos 10% dos homens norte-americanos mantiveram ou mantinham algum tipo de relação homossexual.

Os anos subsequentes registraram o surgimento, em diversas cidades norte-americanas, de organizações voltadas aos direitos dos homossexuais. Persistia, entretanto, a perseguição da polícia, a cobrança de propina e a exigência de “favores sexuais” nas batidas em bares frequentados por gays e lésbicas.

Enfim, em 1969, os frequentadores do Stonewall Inn, localizado no bairro do Village, em Nova York, resolveram se insurgir. A este respeito, é simbólico registrar dois apontamentos.

Ainda que não se tenha absoluta clareza da totalidade de acontecimentos daquela noite de 28 de junho de 1969, é dito que o estopim da revolta foi a agressão que uma lésbica sofreu de um policial. Houve tensão e cerco à polícia, e uma pessoa trans teria gritado: “Já lhes deram o dinheiro, mas aqui tem um pouco mais!”, incentivando os manifestantes a lançarem moedas nos policiais. Uma cena épica, segundo registra a literatura.

Narrar estes episódios, mesmo sem evidências incontestáveis de sua veracidade, é importante para aplacar o processo de apagamento de determinados grupos dentro do movimento LGBT.

Stonewall entrou para a história como um acontecimento quase que exclusivamente gay, o que é incorreto e desconsidera a participação das lésbicas e pessoas trans no processo de afirmação das sexualidades que contestam a existência de uma matriz heterossexual.

Stonewall teve repercussão significativa na sociedade norte-americana e, um ano depois, em 28 de Junho de 1970 acontecia a primeira Parada do Orgulho LGBTI+ de que se tem notícia, também pelas ruas de Nova York.

No Brasil, a ditadura militar (1964 – 1985) dificultava a organização de grupos sociais, os quais poderiam ser vistos pelo regime militar como opositores. Como agravante, as questões ligadas à sexualidade instigam julgamentos morais e podem ferir suscetibilidades religiosas, o que era particularmente comum num período em que se realizavam atos como as marchas pela família. Na época, eram ainda mais corriqueiras as agressões policiais a travestis (FRY, MACRAE, 1983) e as manifestações explícitas de preconceito.

O movimento homossexual brasileiro, articulado de forma mais organizada, surgiu na segunda metade da década de 1970. Mas isso é assunto para um outro artigo. Caso achem interessante, posso voltar aqui e escrever sobre o surgimento do movimento LGBTI+ no Brasil, já nos anos 1970.

Ricardo Sales é sócio-fundador da consultoria Mais Diversidade, professor na Fundação Dom Cabral e pesquisador na USP, onde se graduou, realizou mestrado e atualmente cursa doutorado sobre a questão da diversidade nas organizações.

REFERÊNCIAS:

FRY, Peter. Para inglês ver: identidade e política na cultura brasileira. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982.

________; MACRAE, Edward. O que é homossexualidade. São Paulo: Brasiliense, 1983.

SALES, Ricardo Gonçalves de. Políticas de respeito à diversidade sexual no ambiente de trabalho: análise das percepções sobre o papel da comunicação em organizações participantes do Fórum de Empresas e Direitos LGBT. 2017. Dissertação (Mestrado em Interfaces Sociais da Comunicação) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017. doi:10.11606/D.27.2018.tde-12012018-112601. Acesso em: 2019-06-10.

SILVA, Alessandro Soares. Marchando pelo arco-íris da política: a parada Orgulho LGBT na construção da consciência coletiva dos movimentos LGBT no Brasil, Espanha e Portugal. 2006. 636 f. Tese. (Doutorado em Psicologia Social). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.